quinta-feira, 3 de setembro de 2015

VOZES LIVRES SOBRE TRALHAS

Bruna Obadowski

Pensar a cidade, além de vivenciar suas realizações do quotidiano é uma prática não condicinada ao nosso corpo, não via de regra. Intuitivamente e ainda, automaticamente estamos condicionados a viver os sentidos da cidade e os sentidos que ela nos proporciona de modo automatico, sem transceder muitos caminhos e muitas possibilidades que ela pode nos proporcionar.
Foi assim que, por muitos meses passamos pelos diversos desvios pautados pelas obras de adequção urbana esplhados pela cidade em virtude da copa. Desvios de percurso, de tempo, desvios de objetivos e também desvios na vida. Vidas transformadas por desvios do quotidiano.
Foram meses de atravessamentos, de perspectivas e também de transformação da estética da cidade. Foi experimento e experiência. O corpo que se fazia presente todos os dias em meio ao caos lembra-se diariamente da estrutura quebrada e transformada em rasuras. Essas rasuras estão na memória, mas tmabém estão , em diversas formas de registro, como em fotos, em vídeos e em textos.
Aqui abro um parenteses para dar ênfase ao registro dessas rasuras sofridas pela cidade e que, de alguma forma está viva na nossa memória fotográfica e de forma pálpavel através de fotos. Isso é latente e é também um nó que não deixa passar os questionamentos que envolvem todas as transformações resultado das obras. As fotos aqui desempenham uma função totalmente compreensivel e essencial neste processo. É além do registro imagético, a memória viva de todas transformaçoes sofridas pela cidade. É a passagem da imagem para a revolta social e individual. É além de regitro, elemento de percepção, de sensibilidade e arte.
Quando pensamos na cidade e nas obras sofridas por ela, o VLT é uma experiência que, de forma  intima e, em um segundo momento coletiva que nos remete à sensação de sonho perdido. As razuras foram em vão e as imagens reafirmam essa sensação, essa realidade. Talvez fosse utopia que tudo funcionasse como o planejado. Que tudo funcionasse. Participamos ativamente de um momento de transformação, de intervenção no quotidiano, de atravessamentos na vida urbana, na vida pessoal e por vezes no querer íntimo de uma política para um transporte público que funcionasse de fato. Éramos até então vozes esperançosas à espera de trilhos.
Estruturalemente falando, quebrou-se a organização social dos sujeitos, e  se pensarmos no sentido lógico desembocamos num grande celeiro da poética, a poética do acontecimento. Tudo isso pôs-se reinventado numa nova lógica social, estética e também moral. Esse foi o nosso legado.
O movimento de descontração e, principalmente experimentação veio em forma de intervenção e reinvindicação. Ironicamente questionamentos as rupturas causadas e deixadas pelas obras inacabadas. 
O nosso movimento “VOZES LIVRES SOBRE TRALHAS” emerge em meio a zona de catástrofe fazendo muitas vezes um paralelo entre política e arte, desconsiderando que há dicotomia entre arte e vida. A reivindicação ética foi além de tudo, contra o esquecimento do horror perpetuado coletivamente contra nós.
Vivemos naquele momento realizações do cotidiano humano, por meio da prática artística e da tentativa da arte em abrir caminhos e possibilidades a partir do mundo ja construindo, experimentando o real e readequando estruturas ja existentes para fazer arte, para ironizar, protestar, questionar e pensarmos quantas possibilidades cabia a este espaço e que, de alguma forma efetuam ligações e colocam em contato diferentes níveis de realidade.
Praticamos de alguma forma a Estética Relacional, que nos implica ser para além do ser, tanto na ética como nas interações humanas e que neste momento coube colocar a ética antes do conhecimento e também a ética em forma de arte. Nós sofremos uma transformação e tamém transformamos. Saimos da observação externa nos iserimos coletivamente. Colaboramos uns com os outros, integramos, colaboramos, criamos  uma comunidade com carácter temporário ou utópico, abrimos para todos e intervimos nas obras malacabadas.
Tudo foi reinventado. As ruas serviram de desvios e depois não mais. As obras inacabadas viraram grandes estruturas sem poder social algum. Sofremos desvios momentâneos e depois nos readequamos. Tudo isso em meses, em um gesto de preparação para a copa do mundo, em um gesto de preparação para o caos.
            O não dito está presente. Está nas obras, está na revolta, está no caos. Agora em forma de intervenção, em forma de fotos, em forma de arte.

Referência:


BOURRIAUD, N. Estética relacional. Tradução Denise Bottmann. São Paulo: Martins Fontes, 2009. 151 p.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

VOZES SOBRE A CIDADE

Luara Conrado L. Baptista

Segundo Sandra Rey os atravessamentos do espaço estão ligados às necessidades intrínsecas da busca de informações vitais e o ato de caminhar sempre esteve presente como um elemento que marcava transformação/ressignificação da paisagem e, posteriormente, como proposta estética artística autentica.   Na Europa o dadaísmo - que ressignificou a prática do flanêur da urbanidade moderna parisiense do século XX concebendo-a como ato estético contemporâneo - o surrealismo, o movimento Internacional Situacionista, a Land Art e o Minimalismo, passaram a legitimar a caminhada como prática estética e artística (REY, 2010, p.110).

A partir daí é possível se ter uma noção de que a arte da performance  rompe com uma hierarquização ocidental de manifestações artísticas que vinham formatando a produção artística.   Além disso, a arte da performance já era uma constante antes de apropriações eurocêntricas; dessa forma ao abordar noções de realidade/ficção em produções e estéticas ‘não-europeias’,   Lúcio José de Sá Leitão Agra problematiza:

Não teriam sido as periferias do mundo – onde mais prospera a arte da performance e onde a performance desde sempre existiu com inúmeras outras denominações – aquelas que já de partida não se dei­xam comover pela falsa oposição entre ficção e realidade? Não diziam G.G. Márquez ou Octavio Paz que, no mundo latino-americano, a realidade parece mais absurda que a própria ficção? (AGRA, 2014, p.61).

Pode-se constatar inúmeras formas de performances tanto em culturas ancestrais (desde o nomadismo às praticas ritualísticas ou artísticas) do cenário periférico construído a posteriori como ‘nação brasileira’ quanto a partir dos atravessamentos do espaço e extensões multissensoriais da percepção da paisagem expressos sob diferentes formatos de obras de artistas como o neo-concretista e propositivo Hélio Oiticica, que afirmava ser o corpo não mais um suporte ou mero espectador externo, mas como parte integrante da paisagem.   O neoconcretismo brasileiro marcou a transcendência enquanto movimento de uma crítica à estética construtiva proposta anteriormente pelo concretismo.  O neoconcretismo herdava aspectos do movimento concreto, porém inaugurava outros como a participação do espectador na obra, o espectador como construtor de sentido no universo proposto pelo artista através da obra, a percepção de que corpo é voz, corpo é discurso, dessa forma esses novos elementos se vinculavam à multissensorialidade e à característica experimental de suas obras, que no caso de algumas propostas eram expostas em locais urbanos para que o público pudesse ter contato (SOLEDAR, 2011).  Assim, diversos artistas e movimentos contribuíram para uma releitura do conceito de paisagem, arte e dos principais problemas da contemporaneidade: o problema relacional estético de vinculação de arte e vida ou cotidiano e arte (BOURRIAUD, 2008) e o problema da comunicação, apontado como elemento fundamental por Luiz Beltrão, considerando que vivemos apartados uns dos outros por construções conceituais como classes, origens étnicas, nações, espaços etc. (BELTRÃO, 2004, p.53) e isso nos distancia da dimensão relacional que circunscreve as mediações culturais.

O gesto de “caminhar” na intervenção “Vozes Livres sobre Tralhas” apresentado de forma irônica na intervenção realizada no VLT em homenagem ao “aniversariante que não chegou” foi uma ótima possibilidade de vinculação da cotidianidade às discussões e reflexões do problema relacional estético.   A performance em si já é documento e prova de um acontecimento, a performance capta deslocamentos, em um movimento de alteridade em relação ao que acontece, mas também há a consciência de que todos somos parte da cidade.    Desde todo o processo de elaboração da proposta de intervenção, mapeamento dos locais até a execução percebe-se que os ‘cenários’ expressam estéticas muito comuns à urbe contemporânea: incompletas, inacabadas, pós-modernas, liquidas, temporárias.   Deparamo-nos com uma situação similar à liquidez/fluidez da pós-modernidade a qual Zygmunt Bauman menciona “(...) tudo está agora sendo permanentemente desmontado mas sem perspectiva de alguma permanência. Tudo é temporário (...)” (BAUMAN, 2004), ou seja, as instituições, estilos de vida, paradigmas ao contrario da solidez moderna, se mostram fluidos.  Cabe à intervenção materializar, documentar esses fluidos, essas indignações, essas vozes, mesmo que essa materialização seja temporária, continua sendo documentada, discutida, lida, relembrada, comentada, através de fragmentos da experiência que foram deixados no espaço do VLT.

Retornando à Agra, quando o autor menciona ‘periferias’, se refere também à América Latina em relação à qual propõe um sério questionamento sobre as politicas que suplantaram o ato da performance (documental e teatral).    Porém se refere também aos artistas que se encontram em distintas realidades periféricas do ponto de vista da produção artístico-cultural como paquistaneses, argelinos, poloneses etc. (AGRA, 2014, p.06; 61).  Portanto mesmo tendo conceitos como a circularidade cultural, trocas transculturais, intercâmbios globais etc, como algumas das bases da sociedade contemporânea, ainda se (re) produzem nichos restritos de produção, resultado de uma herança ocidental hegemônica.

Para Stuart Hall, a revolução informacional e tecnológica da denominada “sociedade moderna tardia” tem dinamizado não só os meios de produção, mas também as trocas culturais, sendo a cultura de fundamental importância para a estrutura e organização da sociedade, “ (...) os meios de produção, circulação e troca cultural, em particular, tem se expandido, através das tecnologias e da revolução da informação” (HALL, 1997, p.17).

A cultura ganha cada vez mais evidência em diversas esferas e nichos da sociedade, porém nem sempre todas as culturas se veem contempladas, então se faz necessário problematizar o debate não só sobre cultura mais sobre o desenvolvimento de novas propostas comunicacionais e artísticas que medeiem e desenhem um cenário mais holístico em relação às diferenças e diversidades humanas, nesse sentido o desenvolvimento de uma cultura participativa, construção coletiva de conhecimentos, as intervenções artísticas urbanas revelam um caminho possível para a pratica cultural do respeito e compartilhamento em prol do debate e compreensão das complexas demandas do mundo contemporâneo.

O ser humano contemporâneo é fundamentalmente desterritorializado. Com isso quero dizer que seus territórios etológicos originários – corpo, clã, aldeia, culto, corporação... – não estão mais dispostos em um ponto preciso da terra, mas se incrustam, no essencial, em universos incorporais.  A subjetividade entrou no reino de um nomadismo generalizado (GUATARI, 1992, p.169).




Foto: Bruna Obadowski




Foto: Heidy Bello Medina







Fotos: Bruna Obadowski

Portanto o “caminhar” no VLT, além de ter sido um nomadismo proposital congregou pessoas “desterritorializadas” que possuem origens diferenciadas, mas que convergiram em um ato comum, dessa forma a performance fez parte de um processo de (re) integração ao corpo coletivo e de um exercício da própria singularidade individual (produto da individuação e não do individualismo) no coletivo.   A performance foi proposta pelo grupo e construída também pelos espectadores que faziam intervenções de indignação com a obra inconclusa ou de admiração pelo ato realizado ou felicitações pelo aniversário ‘de alguém’.  Ou seja, foi um ato não só de transformação estética, mas de busca de “informações vitais” do cotidiano, indagações sobre relações de poder, descasos, ruínas, desconstruções estéticas que compõem o tecido urbano entre ‘ires e devires’.



BIBLIOGRAFIA


AGRA, Lúcio José de Sá Leitão.  Performance e Documento, ou o que chamamos por esses nomes?  Rev. Bras. Estud. Presença, Porto Alegre, v. 4, n. 1, p. 60-69, jan./abr. 2014.  D i s p o n í v e l e m : < h t t p : / / w w w . s e e r . u f r g s . b r / p r e s e n c a >

BAUMAN, Zigmunt. Entrevista com Zigmunt Bauman por Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. Tempo Social, vol.16, nº 1. São Paulo, June, 2004 In: Kairós - Revista Acadêmica da Prainha Ano V/1, Jan/Jun 2008.

BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação: Teoria e metodologia. São Bernardo do Campo: Umesp, 2004.
BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. Buenos Aires: Adriana Hidalgo Editora 2008.
GUATTARI, Felix. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Ed. 34, 1992.

HALL, S. The centrality of culture: notes on the cultural revolutions of our time. In.: THOMPSON, Kenneth (ed.). Media and cultural regulation. London, Thousand Oaks, New Delhi: The Open University; SAGE Publications, 1997. ( Cap. 5)

REY, Sandra. Caminhar: experiência estética, desdobramento digital. REVISTA PORTO ARTE: PORTO ALEGRE, V. 17, Nº 29, NOVE MBRO /2010.

SOLEDAR, Jorge. Apontamentos da Teoria do Não-objeto. Revista Valise. Porto Alegre. v.1, n.1, ano 1, julho de 2011.

Memórias de um Cuiabano

Nossa querida e bela Cuiabá! Composta de um povo trabalhador que enfrenta todos os dias inúmeras dificuldades para conseguir viver nesta cidade. Não apenas o clima quente e seco que castiga seus moradores, mas também a falta de estruturas fundamentais para a vida em sociedade.
            Sem perder a alegria, o cuiabano falador e hospitaleiro tem em seu dia a dia verdadeira batalha para concluir seus afazeres. Povo esse formado por várias raças, entre os “tchapa e cruz” e os “pau rodado”, tem destaque os indígenas moradores milenares destas terras que se misturaram aos brancos sulistas e aos negros que trouxeram mais cor e curvas a esta receita deliciosa. Com traços distintos, formam todos uma combinação física de um povo que possui coração enorme e verdadeiro amor por esta terra.

Com quase 300 anos, Cuiabá tem em seu apelido “Cidade Verde” retrato de sua paisagem que mesmo em meio ao concreto e ao ferro preservou suas frondosas mangueiras. O rio que deu nome a cidade, corta a paisagem levando um pouco de natureza a seus moradores. 
Possuidora de grande riqueza cultural, vemos nos casarões centenários localizados nos bairros mais antigos como Lixeira, Centro, Baú e Porto os registros históricos de portugueses e espanhóis que aqui vieram em busca de ouro.
Hoje, o cenário urbano mudou para conseguir acompanhar o progresso e assim dar suporte estrutural para os habitantes que vindos de várias cidades do país e também do exterior, se misturam ao povo que aqui viveu aumentando cada vez mais a população. Se hoje os desbravadores de antigamente aqui chegassem não reconheceriam o local, encontrariam paragens como a região da “Prainha” totalmente modificada por avenidas de trafego intenso que se sobreporão ao rio que rendeu tantas pedras preciosas.
Do Coxipó ao Jardim Vitória, vemos grandes vias, ladeadas por edifícios, casas, viadutos, obras que se estendem horizontal e verticalmente. Agora, com quase 600 mil habitantes (IBGE, 2014) esta região necessita de estruturas físicas para se desenvolver. Infelizmente é preciso testemunhar que são sofrimento e dificuldade que o povo desta terra tem enfrentado para conseguir as condições básicas para sua sobrevivência. Ao andar pela cidade e apreciar suas belezas precisamos estar sempre atentos para não cair nos buracos que arruínam as vias e dificultam o transito. Não apenas a malha asfáltica em péssimo estado, mas toda a infraestrutura básica encontra-se em estado lamentável. São escolas, hospitais e transporte público que precisam de reparos e reajustes.
Bela, porém sofrida, Cuiabá necessita do amparo de seu povo querido, da união destes guerreiros contra a má gestão pública, contra a corrupção que infelizmente assola não apenas esta cidade como todo o Brasil, sendo este o grande mal do país, praga que desembarcou junto aos portugueses na época do descobrimento e que floresceu como erva-daninha causando ainda hoje muitos prejuízos.
Recentemente o Brasil passou por um período atípico, um evento que veio com a promessa de melhorar os locais por onde passasse e que traria dinheiro e vislumbre internacional para várias regiões do país: A Copa do Mundo. Foram muitos anos de preparação, de espera e de mudanças para o tão esperado evento. Cuiabá foi escolhida uma das cidades sedes, eleita a Capital do Pantanal. Para isso, ficou acordado que ela precisaria passar por transformações. O povo cuiabano festejou esta conquista e por muito tempo sonhou com o que a Copa traria a esta terra. Foi eleita uma comissão para decidir quais mudanças aconteceriam e como elas ocorreriam, mas como qualquer comissão eleita neste país, intrínseca a esta estava a tão deplorável corrupção. Muitas melhorias foram definidas, viadutos novos, avenidas maiores, rotatórias em lugares propícios, estádios, centros de treinamento e o famoso VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que seria um transporte público a dar rapidez ao transito. As obras começaram e testaram os limites da paciência e da bondade do cuiabano, que teve que mudar seu caminho, enfrentar gigantescos engarrafamentos, aguentar a poeira e a sujeira das obras, convier com tratores, escavadeiras, tudo para resolver em dois anos seus problemas seculares. E então ele esperou, esperou e a copa passou e o VLT não chegou.
Quanto mais se aproximava o tão esperado evento, mais o cuiabano se preocupava com o estado que estava sua cidade, similar a uma verdadeira zona de guerra. Alguns meses antes do evento, pouco do que foi prometido estava realmente pronto e começou outra luta para esconder e maquiar toda aquela bagunça. Quando os estrangeiros aqui chegaram, tinham apenas o estádio para contemplar. Não tinha VLT, não tinha viadutos, não tinha aeroporto pronto. E foi assim que tudo ocorreu, quatro dias de eventos e festas, quatro jogos que marcaram para sempre a vida do povo desta terra. A copa acabou e o que restou foi ruinas de bilhões de reais que saíram dos bolsos daquele povo sofrido que deu seu dinheiro, seu tempo, sua paciência em prol do sonho de viver melhor.
No mês de julho comemoramos com muito pesar o aniversário de um ano da copa, um ano de VLT, momento que deveria ser glorioso, mas foi melancólico, marcado por frustração e tristeza. Algumas obras foram liberadas e pouco tempo depois bloqueadas novamente por terem sido mal feitas, mal pensadas e mal executadas, por terem custado muito aos cofres públicos, dinheiro esse que não foi totalmente repassado para sua elaboração, pois uma boa parte foi roubada por ladrões engravatados que deveriam por lei defender o povo, mas o que fazem é piorar a vida destes cidadãos. O descaso, a imoralidade deixou marcas por todo o Brasil, pois várias cidades ganharam novas ruinas, viadutos que caíram, avenidas mal feitas entre outros. Agora o que nos resta é esperar mais uma vez, não calados como outrora, e sim lutando para que a promessa seja concluída e o sonho realizado, mesmo fora do tempo, mesmo modificado.
Essa data tão significativa não poderia passar em branco. Muito se falou, reportagens, posts em redes sócias e algumas amostras de insatisfações populares marcaram o mês de julho de 2015 e demonstraram a indignação do povo Cuiabano.
É também preciso destacar outra forma de protesto feita pelos cidadãos. Ao andar pelas ruas vemos algumas marcas de descontentamento, muitas vezes interpretada como poluição visual das cidades, mas que são declarações em forma de pichações, desenhos e frases e que agem como intervenções culturais. Contra a corrupção, contra o descaço do poder público com seus cidadãos, elas são um grito de socorro, um apelo àqueles que transitam.
 Entre as manifestações estava a de um grupo de alunos de mestrado do curso de Cultura Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso. Como participante deste grupo, posso dizer que este foi um dia muito emocionante, marcado pela união, pela vontade de ajudar nossa querida e mal tratada Cuiabá.
Tudo começou com a proposta feita pela professora Maria Thereza Azevedo de realizar uma intervenção cultural em algum lugar da cidade. Os alunos logo expressaram a ideia de elaborar algo sobre as obras do VLT para marcar a data de um ano que ele deveria estar pronto. Depois de muita discussão, foi decidido realizar um evento que representasse uma festa de aniversário. Foi assim que no dia 14 de julho de 2015 os alunos se dirigiram ao viaduto localizado na Avenida Fernando Correa feito para desafogar o transito da região e facilitar a passagem do VLT. Com nariz de palhaço, chapeuzinhos de aniversário, bolos e docinhos todos cantaram canções e celebraram o aniversário em que o aniversariante nunca chegou. Os alunos também levaram painéis que representavam o VLT com nariz de palhaço, uma vela de aniversário e a bilheteria onde seriam compradas as passagens.

Em cima daquele viaduto pudemos contemplar a beleza da nossa amada Cuiabá. Um por do sol estonteante fez do céu vermelho verdadeira obra de arte.
 Com o coração pesado de tristeza vimos os trilhos da modernidade que levariam sossego, conforto e tranquilidade a tantos, mas que agora servem apenas para nos lembrar de tudo o que passou, do tanto que se esperou e que no final nada aconteceu. Trilhos que aparam a água da chuva, que juntam lodo e lixo, mas que ainda aguardam com pequena esperança a vinda do aniversariante, a chegada do VLT.
As pessoas que por ali passavam fizeram questão de participar, mesmo dentro de seus carros, buzinando e gritando incentivo aquele evento que serviu de protesto por toda corrupção. Uma grande fila de carros se fez para que todos que ali passavam pudessem compartilhar, mesmo que de longe, daquele mórbido aniversário. Pudemos sentir como era grande a indignação dos cuiabanos por ver parada uma obra tão esperada.
No final do evento deixamos nossa marca não apenas na lembrança de quem por ali passou, mas também nossos painéis para mostrar que um dia esse aniversariante vai chegar.
O evento acabou e deixou no coração de todos misto de tristeza e felicidade. Tristeza pela situação vivida, pelo contexto criado, mas alegria por ter tentado, mesmo que minimamente, chamar a atenção e mostrar a população e aos governantes que estamos vendo tudo isso, que estamos vivos e que vamos lutar para que prometido seja cumprido, para que o sonho seja realizado e toda essa gente possa enfim desfrutar daquilo que o suor de seu dinheiro pagou.

Referências:
AZEVEDO, Maria Thereza. Vozes Livres sobre Tralhas. Cuiabá, Julho 2015. Disponível em: https://www.facebook.com/pages/Vozes-Livres-sobre-Tralhas/1635808969964363?fref=ts Acesso em 12/08/2015.
BOURRIAUD, Nicolas. Pós-produção: como a arte reprograma o mundo contemporâneo. São Paulo, Martins, 2009.
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2014. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/. Acesso em: 12/08/15.


Aluna: Ellen Kaline Strobel Moreira Weimer

domingo, 16 de agosto de 2015

ENTRE TRILHOS/TRALHAS: APROPRIAÇÃO ESTÉTICA COMO RESISTÊNCIA POLÍTICA (em memória aos ipês mortos pelo bem da copa)




Morgana Moreira Moura




No meio do caminho tinha um VLT
Tinha um VLT no meio do caminho
Tinha um espectro-VLT
No meio do caminho tinha um VLT.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Dos ipês mutilados e arrancados.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha um VLT
Tinha um espectro-VLT
Tinha um VLT no meio do caminho
No meio do caminho só tinha pedra.



CENA 1 – a copa do mundo é nossa
        Em outubro de 2007, o Comitê Executivo da Federação Internacional de Futebol (FIFA) confirmou que o Brasil sediaria mais uma copa do mundo após mais de cinco décadas. Antes da copa efetivamente, a candidatura começa com quase 10 anos de antecedência. Primeiramente, organizam-se os países por regionalidades conforme o rodízio continental estabelecido pela FIFA. Na América do Sul, quais seriam os países aptos a sediar tal mega evento? Em 2003, a Confederação Sul-americana de Futebol (CONMEBOL) anuncia Argentina, Brasil e Colômbia como candidatas à sede do evento em 2014. Todavia, após novas votações, as confederações vinculadas a CONMEBOL decidem em unanimidade o Brasil como seu representante em 2006.
        Após quase dois anos de visitas a diversas cidades brasileiras, vistorias de estádios, possibilidades de acomodação, segurança e demais infraestruturas. Ante as promessas de melhorias em todo o país, o Brasil é confirmado como país-sede desse megaevento esportivo. A copa do mundo é nossa!


CENA 2 – copa do Pantanal: chegada de um rebento para modernização do Mato
        Depois dessa declaração de conquista da sede, o Brasil continuou um processo de eleição, agora interno, entre cidades pois nem todas as capitais teriam o ‘privilégio” de serem consideradas cidade-sede.
       Após batalha entre o estado vizinho Mato Grosso do Sul (tantas vezes confundidos entre si pelos próprios brasileiros), Cuiabá ganha de Campo Grande na disputa por um lugar e agora a copa passa a ser do Pantanal.
     Como receber um megaevento assim? Qual estrutura devemos oferecer aos convidados? Como uma senhora que arruma a casa para receber uma visita ilustre, Cuiabá começa sua faxina, transformando-se em um canteiro de obras vivo.
     Além das ações voltadas para o ecoturismo, prédios novos, viadutos em prol da modernização e do embelezamento de uma cidade que com seu belo ar interiorano, se deparava angustiada com a exigência de um crescimento nos moldes JK (50 anos em 5). O dispositivo mais divulgado foi o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), considerado como modelo de transporte do futuro, seria a “solução” do transporte entre as cidades vizinhas Cuiabá – Várzea Grande (todo o processo de implantação e construção do VLT pode ser visto na página http://www.cuiabamt300.com.br).
    Para construir essa maravilha da modernização do Mato, foram necessárias desapropriações para alargamento e construção de estações, devastações de árvores muitas delas nativas do cerrado como os ipês que gritavam beleza com suas vivas cores no período da seca.
      A copa começou, as visitas ilustres chegaram, mas a casa não estava arrumada. A festa aconteceu, a copa acabou, o Brasil perdeu, as visitas partiram e a casa continuou desarrumada. Mas agora parece que não há mais um por que arrumar. Os (pseudos) trilhos do VLT seguem rasgando as cidades sem previsão de quando receber um trem. Os viadutos seguem rachando, sem uso pelos riscos que oferecem. As casas seguem desapropriadas. E os ipês arrancados seguem como fantasmas na saudade daqueles que lamentam suas flores que nunca mais cairão para colorir os agostos cuiabanos.

CENA 3 - A ocupação como resistência: (re)existir (aos)com os trilhos

I)
     Inquietos por esse cenário, alunos do programa de pós-graduação em cultura contemporânea (ECCO) da Universidade Federal de Mato Grosso articulados as propostas do Coletivo À Deriva (https://www.facebook.com/pages/Coletivo-%C3%A0-Deriva/255646701141126?fref=ts) viabilizaram uma intervenção cujo propósito era dar visibilidade a esse esquecimento, descaso das obras abandonadas, sem posicionamento dos governantes quanto as medidas que serão tomadas para arrumar a casa, que segue suja e desarrumada.
     Assim, em julho de 2015, os alunos se implicaram em organizar a apropriação do viaduto da UFMT, obra inacabada que seria uma das estações do VLT. A ação consistiu na comemoração de aniversário de um ano de um aniversariante que não veio, titulada VLT – Vozes Livres sobre Tralhas. E com vela, balões, bolo, chapéus, instrumentos musicais, cantoria, malabares, painéis desenhados pelos alunos com as estações e os trens, apropriamos do viaduto inacabado, caminhando pelos trilhos que já em ferrugem remetem a um descaso daquilo que se perde com o tempo.
        Os carros passam, buzinam, gritam estímulos ou dissabores, resistimos. Convidamos a participarem da festa: - o aniversariante não está, mas podem entrar! Muitos carros param, recebem os brigadeiros distribuídos, param o trânsito, o viaduto é nosso, a cidade esquecida é nossa, interferimos seu fluxo com brigadeiros. Mesmo que por alguns minutos, fugimos a disciplina da arquitetura urbana, que controla fluxos, corpos, numa estratégia biopolítica (FOUCAULT, 2009).

foto: arquivo Vozes Livres Sobre Tralhas



II)
       Em apropriação urbana anterior (Sombras que passeiam), Azevedo (2013), resgatando Deleuze e Guattari, descreve a cidade enquanto um sistema regulado pelas produções, pelas relações de trabalho, valores de consumo, relações midiáticas e burocratizações que empecilham os fluxos cotidianos. Cidade-controle essa que implica nos processos de subjetivação, nos modos de ser, sentir, pensar. Que aniquila a potência de ação da vida, e muitas vezes aniquila a vida mesma (podemos pensar aqui as chacinas urbanas de crakeiros em prol de uma higienização). Nessa cidade-controle, Azevedo (2013) destaca as intervenções artísticas como possibilidade de “engendramentos de devires singularizadores que nos aproximam da vida” (p. 139).
         No modelo neoliberal, Hardt e Negri (2014) descrevem a cidade como sendo a sede da produção biopolítica onde o controle se dá em maior intensidade. Todavia, eles pontuam que essa também é potência de resistência ao possibilitar encontros que, apesar dos desvios e barreiras de concretos para evitados, se dão em terrenos de afetos, conhecimentos e desejos.
        Ao mesmo tempo em que vemos a cidade-controle num movimento de expropriação do comum, dos encontros efêmeros, dos afetos, dos ipês. Vemos emergir como potência, uma cidade que resiste a esse controle neoliberal por meio das ações artísticas. Mas a cidade só se configura como potência a partir do momento que nos apropriamos dela e resistimos a esse controle, a essa expropriação.
    No que diz respeito a esse legado da copa, Galindo, Lemos e Rodrigues (2014) resgatam Agambem para descreverem que a Copa de 2014 serviu para a criação de um estado de exceção “no qual as regras do Estado Democrático de Direito são deslocadas sob a insígnia de um sacrifício em troca de investimentos”. Ou seja, a firmação de uma violência em prol de um bem comum. Desapropriações, devastações, em prol da segurança, modernização e mobilização, tornando vidas invisíveis, descartáveis.
     Ao apropriarmos da cidade, resistimos a esse estado de exceção. Fazer da cidade lugar de potência e dispersão dos mecanismos de controle e segurança neoliberais é para um movimento ético, estético e político, “vital na produção da liberdade no presente” (LEMOS, GALINDO, AGUIAR, 2014, p.207).
     Rena (2014) descrevendo a relação entre arte, espaço e biopolítica resgata a importância das ações artísticas no cenário urbano como produtora de subjetivações libertárias, criativas e potenciadoras. A arte trabalhada na cidade como processo criativo, colaborativo e horizontal atuando na constituição do comum contra a prática do capitalismo.
    Como Azevedo (2013) e Rena (2014) descrevem as potencialidades das apropriações poéticas no cenário urbano, a ação Vozes Livres sobre Tralhas atuou como um potencializador da cidade ao apropriar desse cenário, antes de controle e disciplina. Convidando os motoristas a colaborarem dessa ação ampliou ainda mais o ato de resistência à cidade-controle, aniquiladora. Parando o trânsito com brigadeiros interferimos em seu fluxo contínuo de controle.
       Colorir os trilhos cinzas com malabares, balões e músicas implicou numa (re)existência (aos)com os trilhos, uma ação de implicação ética, estética e política (GUATTARI, 2012). Ética no sentido de propiciar o encontro com o outro, com o comum, ampliando as territorialidades, acompanhando o movimento coletivo do desejo. Estética por engendra-se pela diferença, pelo singular, por subjetivações que se encontraram em discursividades vocais, musicais, plásticas, circenses, propiciando assim rupturas ativas, processuais. Política por pôr em questão a problemática da economia do desejo, pôr em questão a cidade-controle em oposição a cidade-potência.
Sabemos da eficácia das intervenções poéticas como mobilizadoras da cidade-potência. Quantas ações mais podemos realizar para potencializar a cidade, problematizar as tralhar de copas deixadas ao esquecimento, resgatar as lembranças vivas dos ipês mortos em prol de um bem maior num estado de exceção?

Foto de arquivo pessoal - ipê branco na Praça da República


"A despeito de toda a nossa loucura, os ipês continuam fiéis à sua vocação de beleza" (Rubem Alves)



AZEVEDO, M. T. O. Passeio de sombrinhas: poéticas urbanas, subjetividades contemporâneas e modos de estar na cidade.  Revista Magistro, v. 8, n. 2, p. 138-146, 2013.

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Corpos juntos equilibrando sobre trilhos
Elka Moura Victorino
Pensar a cidade, considerando toda sua complexidade, sua história, sua lógica sócio espacial e sua geografia física e humana, como lugar de estar, de perambular, de experiências e de ações artísticas, permite a construção de elementos e fundamentos conceituais para a elaboração de um projeto artístico de intervenção urbana. De certa forma, pode-se pensar a cidade como suporte efêmero, de caráter variável e transitório, não passivo e multiplicador, capaz de abrigar um projeto de intervenção artística e urbana, com seus componentes geográficos e humanos, que dá visibilidade e interatividade a esses componentes. O sistema da cidade, conforme Maria Thereza Azevedo (2013) é regulado pela produção, pelas relações formalizadas de trabalho e família, pelos valores de consumo impulsionados pela mídia, cheio de funções e regras inventados para regularmos uns aos outros.
Para Wagner Barja (2008), entender a cidade, seus atores e seus equipamentos públicos como um meio e suporte flexível e também um lugar predestinado a esse modelo de arte, é pensar e querer dar conta de uma determinada sociedade e de seus possíveis. “Intervir é interagir, causar reações diretas ou indiretas, em síntese, é tornar uma obra interrelacional com o seu meio, por mais complexo que seja, considerando-se o seu contexto histórico, sociopolítico e cultural.”(BARJA, 2008, p. 2013)
Compartilhando com esses pensamentos, e embasado em estudos sobre a arte da intervenção urbana, como uma manifestação que vem abarcar uma rede de conceitos, que brotam em campos diversos e abrangentes da cultura artística contemporânea, um grupo de discentes-artistas do Coletivo à Deriva[1], no dia 14 de julho de 2015, interagiu com a cidade de Cuiabá-MT, por meio de ações amparadas por um emaranhado de arte e política. Contando com a característica híbrida das intervenções urbanas, Vozes Livres sobre Tralhas[2] foi capaz de ultrapassar as fronteiras da própria arte, projetando na cidade, na vida cotidiana, de forma irônica, um desabafo que, hoje, para Cuiabá é fato: percorremos, num fluxo veloz, sobre cenários de uma Copa do Mundo, inacabados.
                                                     


   Figura 1 Vozes livres sobre tralhas.


A poética do inacabado, nome dado pelo Coletivo ao cenário de obras inacabadas da Copa do Mundo de 2014, com sede em Cuiabá, foi o agente disparador de ideias que engendraram o programa de ações realizadas nessa intervenção. Calorosas e divertidas discussões levantaram questões relacionadas aos transtornos provocados por essas tralhas de obras, no trajeto da cidade, e a relação com a impotência dos cidadãos perante a corrupção e impunidade dos responsáveis. Sentimento de revolta e indignação tomaram conta das aulas e ancoraram o embasamento teórico do grupo, criando um espaço ampliado de reflexão para o pensamento contemporâneo.
Pensando o contemporâneo, Paola Berenstein (2008) diz que, da relação entre o corpo do cidadão e o corpo urbano pode surgir uma outra forma de apreensão urbana e, consequentemente, de reflexão e de intervenção na cidade contemporânea. Para a autora, o empobrecimento da experiência urbana pelo espetáculo leva a uma perda da corporeidade, os espaços urbanos se tornam simples cenários, sem corpo, espaços desencarnados. “Os novos espaços públicos contemporâneos, cada vez mais privatizados ou não apropriados, nos levam a repensar as relações entre urbanismo e corpo, entre o corpo urbano e o corpo do cidadão.” (JACQUES, 2008, p. 03)         
                                                          Figura 2 Vozes livres sobre tralhas.

Assim, torna-se inevitável falar sobre o corpo, desse corpo marcado pelas experiências sensório motoras vividas na cidade, em especial aqui, no percurso sobre os entulhos, desvios, buracos e tralhas da cidade. O corpo que experimenta a cidade, carrega as marcas daquele tempo e espaço vivido, e ao mesmo tempo, deixa suas marcas na geografia urbana. O desenho que o corpo faz, naquele determinado tempo e espaço da cidade inscreve na geografia urbana a sua coreografia que, ao mesmo tempo, determina os movimentos desse corpo, o que Paola Berenstein chama de corpografias urbanas[3]. A corpografia urbana seria uma forma específica, corporal, de psicogeografia, e a deriva uma das formas possíveis, um exercício entre outros, de errância urbana.”(JACQUES, 2008, p. 05)
Os corpos dos discentes-artistas do Coletivo à Deriva, que clamavam por um olhar sobre as tralhas de trilhos do viaduto da Avenida Fernando Corrêa da Costa, experienciaram o “estar juntos”, em várias camadas de tempo e espaço urbanos, disparando, neles, sensações que desencadearam percepções comuns da cidade quente, de obstáculos, do medo, da impunidade e dos cidadãos impotentes. O estar junto é tema central da Arte Relacional (BORRIAUD, 2008), essa, que parte da intersubjetividade presente nas experiências vividas pelo corpo na cidade, como micro resistência ao processo de espetacularização das cidades contemporâneas.
“[...] essas vivências em coletivos propiciam outras formas de relação com o tempo e com o espaço que não as obrigatórias e estandardizadas e estão no foco da arte relacional, uma arte que toma como horizonte teórico a esfera das interações humanas e seu contexto social, “mais que a afirmação de um espaço simbólico autônomo e privado- dá conta de uma mudança radical dos objetivos culturais e estéticos culturais e políticos postos em jogo pela arte moderna.” (BORRIAUD, 2008, p. 13)

                                                                         
   Figura  3 Vozes livres sobre tralhas.


Foi a partir dessas percepções, que o Coletivo traçou programou suas ações para intervir na cidade, mais especificamente naquele ponto da cidade (tralhas do viaduto da UFMT), criando um lugar para o corpo estar e traçar outra coreografia, grafado por outra geografia, agora, com lugares para festa, ironia e comemoração de “1 Ano de aniversário do VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos)”. Nessa ação de ruptura do fluxo comum, de desvio de rota automática, de quebra do tempo binário, surgiram atores, bailarinos, cantores, performers, arquitetos, entre outros, que não viam mais a cidade somente de passagem, mas a experimenta de dentro, a partir de sensações vividas, das corpografias de cada um.
O Coletivo à Deriva passou, então, a interferir na cidade com postura crítica e propositiva, resistindo ao rotineiro e tornando visível o não visto, ao escancarar por meio da arte, da festa, da intervenção urbana, as questões políticas, econômicas, sociais e culturais, embutidas nas obras inacabadas da Copa do Mundo de 2014. Essa forma de intervenção, arte e política, como descrito por José da Costa (2010), valoriza os modos coletivizados de autoria e enunciação, a investigação de espaços não convencionais e sua apropriação ou ocupação em prol da experimentação sensível e expressiva das subjetividades em jogo produtivo.
A inquietude dos Coletivo perante as circunstâncias da cidade, motivou a criação de estratégias de permanência e de identificação, nas quais, conforme Michel de Certeau (1994), o sujeito que a cidade abriga a refabrica para seu uso próprio. Assim, a vela, o bolo, os docinhos, balões, as músicas, etc, elementos de uma outra atmosfera, se inscreveram na nova dinâmica dos trilhos e negociaram com as diversas tramas da cidade. Pensar a intervenção urbana nessa perspectiva é lê-la como uma trama que se sobrepõe a diversas tramas, a partir do momento que rompe com o corriqueiro.
Se, conforme Fabiana Brito, o espaço público e a experiência artística constituem aspectos da vida humana, cuja dinâmica tanto promove quanto resulta dos modos de articulação entre corpo e seus ambientes de existência, para o grupo de discentes-artistas do Coletivo à Deriva, em “Vozes sobre Tralhas”, o espaço acadêmico foi um local de experimentação de hipóteses entre teoria e arte, de relação entre o corpo e a cidade.
                                                        
Figura4 Vozes livres sobre tralhas.

Referências:
BARJA, Wagner. Intervenção/terinvenção: a arte de inventar e intervir diretamente sobre o urbano, suas categorias e o impacto no cotidiano. Revista Ibero-americana de Ciência da Informação (RICI), v.1 n.1, p.213-218, jul./dez. 2008.
BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. Buenos Aires: Adriana Hidalgo Editora, 2006.
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Martins, 2009.
CERTEAU, Michel. A Invenção do cotidiano. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1994.
COSTA, José Da. Subjetivações e biopolítica: os devires do mundo na cena. VICongresso de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas 2010.
JACQUES, Paola Berenstein. Apologia da Deriva, escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.
________________________Corpografias urbanas http://www.corpocidade.dan.ufba.br/arquivos/Paola.pdf 2008


[1] O Coletivo à deriva surgiu no IL/ UFMT no Grupo de Pesquisa Artes Híbridas do ECCO liderado pela profa Maria Thereza Azevedo.
[2] Intervenção realizada pelo Coletivo à Deriva no dia 14/07/2015.
[3] Ver mais em JACQUES, 2008.

POÉTICAS DE VIADUTO: CORPOGRAFIAS E PERFOGRAFIAS NA CIDADE DE CUIABÁ.

Daniela Leite
Jan Moura



Foto: Jan Moura
Uma vela está queimando
Hoje é nosso aniversário
Está fazendo hoje um ano
Que você me disse adeus

Eu não sei se nessa chama
Ainda queima a esperança
Eu só sei que a saudade
Ainda me queima o coração

Meus parabéns agora
E feliz aniversário amor
Estás feliz agora
Depois que tudo acabou
Depois que tudo acabou

Todo dia é o mesmo dia
Toda hora é qualquer hora
Quanto tempo vou viver
Sem esquecer o seu amor

Sua história mal contada
Não me sai do pensamento
Eu bem sei que foi desculpa
Teve alguém em meu lugar

(Diana - Compositor: Raul Seixas/ Mauro Motta)



Esses espaços, embora invisíveis, adquirem texturas diversas, “como se recobrissem as coisas com um invólucro semelhante à pele: o espaço do corpo é a pele que se prolonga no espaço, a pele tornada espaço”. (José Gil, 2004)


Como em todos os dias, milhares de pessoas iam e viam pela Avenida Fernando Correa da Costa, onde existe um viaduto construído para atender os anseios de uma população carente de melhorias no transporte e mobilidade urbana. A essas pessoas foram prometidas diversas obras que carregavam a promessa de uma “revitalização” na cidade. Pelos monumentos de concreto, que agora, decoram a cidade que um dia foi conhecida como cidade verde, passaria um tal de veículo leve sobre trilhos, ou carinhosamente chamado de VLT, que deixaria qualquer proposta de espetacularização da vida urbana parecendo festa de pobre. O veículo seria a solução para os problemas de mobilidade urbana e de quebra deixaria a cidade “chique no úrtimo”. Era o dia quatorze de julho de dois mil e quinze, em uma cidade chamada Cuiabá, capital de Mato Grosso, e já se passava mais de um ano do dia que foi prometida a sua inauguração. Era o dia do seu aniversário de um ano e o bebê não veio para a festa.

Foto: Daniela Leite


Vozes Livres sobre Tralhas, como foi batizado pelo Coletivo à Deriva, consistiu em uma composição/performance urbana, em que diversos artistas, pesquisadores, transeuntes e mais um tanto de gente inconformada com as políticas públicas da cidade, inclusive policiais militares que apareceram por lá, se encontraram para realizar uma festa de aniversário surpresa para o convidado que não viria, o VLT. 



Foto: Heidy Bello Medina

A ação/acontecimento foi mobilizada a partir da disciplina Tópicos Especiais em Poéticas Contemporâneas II – Estéticas Emergentes na Cidade, ministrada pela Professora Doutora Maria Thereza Azevedo, através do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso. E consistiu em um programa performático que iniciou com o desenho e pintura de painéis ilustrativos de uma possível estação do VLT, e a decoração do viaduto da UFMT, na avenida Fernando Correa da Costa, com balões pretos inflados com hélio, alusivos a uma festa/luto de aniversário, além disso os performers fizeram bolo e doces para compor a festa. No final do dia todos subiram ao viaduto carregando os balões, painéis, instrumentos musicais, chapéus, narizes de palhaço e cantaram “Parabéns a Você” e comeram o bolo.


Foto: Jan Moura

 

O programa da performance, apesar de simples, quebrou a rotina das pessoas que transitavam naquela avenida, e faziam suas próprias leituras sobre o acontecimento. Naquela mesma avenida que diversas pessoas passavam todos os dias subitamente estava decorada com centenas de balões pretos, e lá em cima, onde não havia a presença de pessoas caminhando, habitavam durante esse tempo, algumas pessoas que pareciam comemorar alguma coisa. A ação teve o poder de deflagrar o surgimento de outras visões sobre aquele espaço, e provavelmente provocou a quem via questionamentos, que foram ou não respondidos.


Foto: Morgana Moura

 

A ação/performance, tem um cunho político bem explícito, mas ao mesmo tempo pode ser pensada como uma ação poética, para além da sua intenção questionadora, com inspirações nas teorias da arte relacional de Borriaud (2009), tem como desejo de se configurar como um disparador para uma experiência estética de convívio, cartografia e ocupação do espaço urbano da cidade. Como uma possibilidade também de micro-resistência à automatização urbana, ao explorar a festa no viaduto como um ato desviante do uso comum daquele espaço. A ação criou um campo de contato, uma oportunidade do público se perceber como participante, e por consequência ser também elemento desse jogo, e assim realizar uma experiência em arte e não uma fruição pura, fria e espetacular. 

Foto: Jan Moura



A possibilidade de uma arte relacional (uma arte que toma como horizonte teórico a esfera das interações humanas e seu contexto social mais do que a afirmação de um espaço simbólico autônomo e privado) atesta uma versão radical dos objetivos estéticos, culturais e políticos postulados pela arte moderna (BORRIAUD, 2009, p. 20).

Foto: Jan Moura



Ao sair dos circuitos oficiais da arte, o teatro, a dança, a performance, as artes visuais, a música etc, carregam um desejo de questionamento, não só pelo seu conteúdo, mas também por desejar colocar o corpo em novas experiências possíveis. Esse movimento contracorrente, a escolha, a busca por uma arte que se interaja de forma mais intensa com a vida, carrega além de um interesse artístico ou um experimentar com outros materiais, uma atitude política/estética.


Foto: Jan Moura


Guattari e Rolnik (1996) falam de uma produção de subjetividade capitalística, formada por uma cultura de massa, que produz “indivíduos normalizados, articulados uns aos outros segundo sistemas hierárquicos, sistemas de valores, sistemas de submissão – não sistemas de submissão visíveis e explícitos (...), mas sistemas de submissão muito mais dissimulados” (1996, p. 16). 

Foto: Jan Moura




Já Deleuze e Guattari (1996) afirmam que somos segmentarizados por todos os lados e por todas as direções. Somos programados e esquematizados em estratos que nos compõe. Trabalhar, criar, brincar, circular, o ato de viver está fechado em segmentações espaciais e sociais. “A casa é segmentarizada conforme a destinação de seus cômodos; as ruas, conforme a ordem da cidade; a fábrica, conforme a natureza dos trabalhos e das operações” (DELEUZE E GUATTARI, 1996, p. 83-84).


Foto: Jan Moura



Vozes Livres Sobre Tralhas se propôs romper, com essas operações capitalísticas, com a segmentariedade que nos compartimentaliza, ao propor outras formas de ocupação daquele espaço, criando uma experiência, uma estética relacional (BOURRIAUD, 2009) que se deu entre os performers ao se mobilizarem para realização da ação, da relação com o espaço urbano e da relação que se estabeleceu entre as pessoas que passaram por ali, que buzinaram, gritaram ou apenas olharam sem entender. Estabelecendo assim a arte não só na materialidade dos balões ou dos painéis, mas exatamente no entre, formado pela conjunção de todos os elementos.



Foto: Jan Moura

 

As práticas performativas em espaços urbanos criam zonas de experiência micropolíticas (DUBATTI, 2007). A arte sai de seu patamar de obra intocável e se aproxima do cotidiano, passa a ser a experiência em si. A cidade se configura como um campo de experiências, pois permite e amplia a noção de proximidade, que para Bouriaud (2009) é o símbolo do estado de sociedade, pois permite o encontro fortuito e o acaso das relações, diferente de um estado de natureza que impedia qualquer encontro fortuito mais duradouro (BOURRIAUD, 2009, p. 21). 


Ao estar na rua, imerso na cidade, sujeito a todos os riscos e relações que se estabelecem, o corpo do performer percebe a cidade como um conjunto de condições interativas, de percursos, configurando o que Jacques e Brito (2010) chamam de corpografias urbanas, ou seja, uma espécie de cartografia corporal, que se entrelaça com o objeto cartografado que é a cidade inscrita pela presença do corpo e que, assim, o corpo recebe simultaneamente e se configura pela relação, mesmo que involuntária, com essa urbe. Desse modo, as corpografias são resultantes da experiência no espaço-tempo da cidade, onde o corpo relaciona e processa tudo o que experiencia. 
O ambiente (urbano inclusive) não é para o corpo meramente um espaço físico disponível para ser ocupado, mas um campo de processos que, instaurado pela própria ação interativa dos seus integrantes, produz configurações de corporalidade e ambiência (JACQUES e BRITO, 2010, p. 14).



Foto: Jan Moura

MARQUES e RACHEL (2013) entrelaçam performance e cartografia não só para ilustrar a multiplicidade de configurações que esta discussão tem tomado ao longo do tempo, como também procuram observar como elas estão constantemente em contato com a relação corpo e cidade, de modo que talvez possamos deduzir que proposições como os híbridos Perfógrafo e Perfografia (Performance + Cartografia), estejam interessados em insistir na natureza politicamente incorreta da performance como linguagem artística, uma vez que esta pode vir a ser uma potente forma de ativação de micro re-existências urbanas ao desdomesticar a relação entre corpo e cidade ao reafirmar o sentido público do espaço urbano. Nesta perspectiva, o Perfógrafo em suas Perfografias não estaria interessado na regulação de um espaço autônomo e privado em relação à cidade, pelo contrário, ele deseja ir sem ver, de corpo inteiro mergulhado no fluxo cotidiano urbano, experimentando as chamadas errâncias urbanas (JACQUES, 2012) ora fazendo visitas a territórios existenciais no espaço urbano, uma vez que toda obra de arte é uma habitação (PASSOS apud BARDAWIL, 2011).


A prática do performer e do cartógrafo apresentam uma lógica notadamente processual. Tanto a performance como linguagem artística quanto a cartografia parecem estar interessadas no engendramento de processos criativos no/com o mundo. A performance borra as fronteiras entre as linguagens artísticas, e também desloca o processo criativo para o centro do ato artístico, refazendo a noção de obra, artista e público, reaproximando a práxis artística da práxis vital. No que diz respeito à cartografia, a própria Rolnik é quem nos conta que esta, diferentemente de um mapa, que representa um todo mais ou menos estático, é um desenho em movimento que acompanha e se faz ao mesmo tempo em que o movimento de transformação da paisagem. Nesta perspectiva, podemos pensar a cartografia não como um método. O cartógrafo, nesse caso, não preestabelece um caminho em direção a uma meta, mas sim aposte nos caminhos, nos trajetos, nos percursos, em suma, na experimentação dos processos, o que não implicaria em uma falta de rigor, uma vez que este estaria diretamente implicado com a potência de vida. Deste modo, podemos entender que tanto o performer como o cartógrafo são aqueles que vão sem ver, mas vão de corpo inteiro, porque sabem de saída, que o caminho só se faz caminhando.


Arte aqui não é entendida como monumento, ornamento, decoração ou espetáculo, mas como engendramento com o mundo, em um encontro incontornável e irreversível com o outro urbano. Para Eleonora FABIÃO (2008), esta seria a força da performance: turbinar a relação do cidadão com a polis, do agente com seu contexto histórico, do vivente com o tempo, o espaço, o corpo, o outro, o consigo. A potência da Performance residiria em seu poder de des-habituar, des-mecanizar, escovar à contra pelo. E parafraseando novamente Fabião: uma vez que o performer evidencia o corpo é para tornar evidente o corpo-cidade. O Perfógrafo experimenta a precariedade das formas errantes durante os seus movimentos de reterritorialização e testa a composição de uma performance urbana pelo trajeto, ao mesmo tempo em que faz da errância uma interrogação política das cidades. (BOURRIAUD, 2011)


Foto: Jan Moura




Se estivermos de acordo com Clarice Lispector, que dizia que perder-se também é caminho, podemos entender o Perfógrafo como um ser errante. Em suas Perfografias este convoca os transeuntes a transformarem os espaços ordinários da metrópole em espaços extraordinários, ao realizarem não uma intervenção, o que poderia dar margens ao entendimento da ação de um sujeito sobre um objeto, mas uma Composição Urbana. (AQUINO; AZAMBUJA; MEDEIROS, 2008).


Assim, a composição urbana Vozes Livres sobre Tralhas é a experiências do espaço pelos habitantes, passantes ou errantes que reinventaram esses espaços no seu cotidiano. Para os praticantes voluntários de errâncias são sobretudo as vivências e ações que contam as apropriações feitas a posteriori, com seus desvios e atalhos, e estas não precisam necessariamente ser vistas (como ocorre com a imagem ou cenário espetacular), mas sim experimentadas, com os outros sentidos corporais (JACQUES, 2012 Paola Berenstein).


Foto: Jan Moura




REFERÊNCIAS 
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Foto: Jan Moura